Mater Capĭllus

Cabelo de mãe. Eles mudam muito depois da benção que são os nossos filhos. Os filhos ficam, e os cabelos se vão. Sem dúvida a maternidade acaba com os cabelos da gente, literalmente. O nome disso é alopecia; parece nome de figura de linguagem, mas trata-se do nome científico para queda de cabelo. Primeiro tem aquele período de amamentação que os cabelos caem sem parar, muitos, centenas, milhares de fiozinhos são deixados pelo banheiro, travesseiro, sala, cozinha… Lembro-me que muitas vezes, ainda quando o Vinicius mamava, depois de tomar banho, eu secava meu cabelo e uma parede do banheiro ficava cheia, cheinha mesmo de fios grudados. Parecia spaghetti quando a gente joga contra os azulejos para ver se está no ponto. Só que spaghetti a gente come. Era uma tragédia, eu ficava malzona…  Dizem que perdemos normalmente de 50 a 100 fios de cabelos diariamente. Digamos então que durante a amamentação perdemos o dobro, 200. O Vinicius mamou um ano. Isso dá 72 000 (!) fios de cabelo perdidos naquele período. “Ah mais volta, são as mudanças hormonais”, é isso que a gente escuta o tempo todo das amigas mais experientes. Acontece que a perda de cabelos é atribuída não só à mudança hormonal, mas também a outros fatores, como problemas emocionais, stress, alimentação desequilibrada, hábitos de vida inadequados (como falta de sono, por exemplo), entre outros. Acorda! Depois de ser mãe, todos esses fatores fazem parte de nossas rotinas. Minha conclusão: a gente não vai parar de PERDER CABELOS!!! SOCORRO!

De fato, alguns voltam a nascer. Mas ainda não sei se não seria melhor se não viessem mais. Esses fiozinhos que nascem depois, formam uma aura de fios crespos em volta da cabeça. Pra piorar, vez ou outra vem a kanície (que quase rima, por uma incrível e infeliz coincidência, com calvice): os indesejáveis fios brancos. No meu caso, eles já aparecem com muita freqüência. Pior é que são duros e ficam em pezinhos, pra todo mundo ver. “Fio exibido! Bobão!”;  eu vou lá e arranco. Só que diz a lenda que onde você arranca um, nascem dois… Será que é verdade? Vai ver que é por isso que eu estou absolutamente cheia de kanicie no couro que cobre a parte superior do meu crânio.

Além dos fios brancos, queda de cabelos, tem o problema do cabelo opaco. Que raiva que eu sinto das propagandas de shampoo, ou melhor, das modelos. Aquelas mulheres lindas, com um quilo de maquiagem, balançam em câmera lenta umas cabeleiras ultra brilhantes, cheia de fios que não se desgrudam, todos do mesmo tamanho. Não tem um cabelinho quebrado pra contar história. “São imagens manipuladas digitalmente”, tento me convencer. “Ou não?”… (segundos de silêncio)… Pois é, fica a dúvida. Aquilo pode ser de verdade?

Definitivamente, meu cabelo anda horrível. Meu marido, bonitinho, quer ajudar. Tem uma faxineira no trabalho dele que vende produtos da Natura. Cada dia ele traz uma coisa nova: shampoo anti-cabelo-rebelde, com queratina, vitaminas de A a Z e o escambau, cremes “que trazem o frescor da natureza aos seus cabelos”, máscara capilar com cera, favo, mel, abelha… “Nossa, Solano, você deve estar achando meu cabelo horrível? Você não pára de comprar produtos capilares da faxineira!”. Alma boa tá aí: “não, eu estou querendo ajudá-la. A coitadinha tem um monte de filhos, o marido foi embora. Seu cabelo tá ótimo. Só um pouquinho ressecado. Mas olha, eu já encomendei um outro shampoo que ela falou que vai ser ótimo pra você”. Imagine, a faxineira virou minha dermatologista e eu nem sabia.

O agravante: estou os deixando crescer, pela última vez. Depois não dá mais aquela cabeleira ressecada e branca até o meio das costas…fica parecendo a Maria Bethânia  (que aliás, vamos combinar, podia cortar aquele cabelo). Definitivamente, é a derradeira. Depois que eu ficar com aquela carinha de hippie fora de hora, vou cortar de verdade e deixar para sempre um visual de mulher madura. Mas será que até lá meu cabelo vai melhorar? Porque cabelo curto com alopecia e kanicie é o fim da dignidade de uma mulher. Fica aparecendo o coro cabeludo brilhando. Não dá.

Enquanto eu vou deixando meus cabelinhos crescerem, vou tentando domá-los. Não tem outro jeito. Eu os prendo, faço coquis, junto em cima, em baixo, rabo de cavalo, até duas trancinhas eu já tentei. Bem, fica ridículo.

Mas tudo isso perde totalmente a importância quando olho para a Isis e o Vinicius e os seus cabelos… tão macios, sedosos, lindos… “fizemos tudo direitinho, caprichamos!”. De manhã, quando prendo o cabelo da Isis para ela ir à escolinha ela diz: “meu cabelo é de ‘pincesa’, né mamãe?”. De cara de sono, e mal-humorada, meu rosto se transforma e um sorriso o ilumina: “É filhinha, seu cabelo é lindo e você é minha princesinha!”, dou um beijinho no rosto, a gente se abraça, prendo meu cabelo com um lápis e a vida continua  Nesse momento, se meu cabelo tem kanicie, alopecia, seborréia (eu tinha esquecido desse), opacidade, tá tudo bem. Como é bom ter cabelo ruim!

This entry was posted on Friday, September 25th, 2009 at 03:22 and is filed under arte. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 Responses to “Mater Capĭllus”

  1. Bezinha Says:

    Pensei mil coisas enquanto ia lendo o texto, tentando lembrar como todo esse processo de perda de cabelos e fios brancos aconteceu comigo.
    Antes de ficar grávida, sempre tive vontade de cortar o cabelo bem curto, mas tinha medo de ficar com cara de bolacha na gravidez, então posterguei a vontade.
    Meus cabelos longos duraram até o sexto mês de vida da Ana e então comecei a cortar: primeiro foi o chanel e depois um bem curtinho, fashion que eu amei e mantive por quase seis anos. Isso ajudou o cabelo a crescer mais forte e saudável depois da guerra hormanal (amamentei até o nono mês!).
    No começo de 2009 resolvi que deixaria crescer novamente, (quem sabe já não é uma preparação pra uma segunda gravidez!) e vi que comecei a ter mais trabalho para mantê-los saudáveis e não ter a vontade irresistível de cortá-los novamente.
    Achei um produto ótimo para ser usado após o banho (era uma creme que eu comprava para os cabelos da Ana) e tenho ficado bem satisfeita como resultado. Depois te passo o nome.
    Quanto aos branquinhos, tenho aquela vontade de arrancá-los cada vez que entro num elevador com espelho (êta lugarzinho pra dar flagrantes nos indesejáveis cabelos brancos!), fica aquela tentação (como foi a de espremer cravos e espinhas na adolescência ou a de tirar aquele pelinho da sobrancelha…). Tenho resistido, porque mais raiva do que achar cabelo branco, é achar aqueles cotoquinhos novos que vão nascendo depois de terem sido arrancados.
    Ah, beber bastante água ajuda muuuuito, muuuito mesmo, mais do que dormir! E enfim, tenho olhado pros branquinhos com mais generosidade, afinal eles representam também muita coisa boa que já vivemos…
    Beijinhos
    Bezinha

  2. Dani Says:

    Bom, você até que está bem pois eu já ouvi a lenda de uma forma bem pior, quando se arranca um, nascem quatro! Aliás um de meus passatempos prediletos era arrancar os cabelos brancos dos meus pais, até que um dia eu desisti pois eram tantos já que não dava mais conta!
    Gostei do termo, aura de de fios crespos, me olho no espelho e só vejo isso… meu cabelo ficou tão lindo na primeira gravidez, ai se eu soubesse que isso era o que me esperava no pós parto…. faria tudo de novo e foi o que eu fiz.
    Te vejo amanhã, querida amiga!
    bjs

  3. Helena Says:

    Bem, resolvi meu problema de cabelos brancos (pelo menos por enquanto): fiz luzes! Fiz luzes! Gostei muito, e agora já passou a neura de arrancar cabelos brancos. Que alívio!

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